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A velha igreja de Alquerubim – a que eu conheci quando era menino e moço e que foi restaurada por volta de 1912 – erguia-se, naquele tempo, menos elegante, menos airosa do que hoje, mas mais vulnerável no seu aspecto vèlhinho com seus musgos, suas soleiras desgastadas por séculos de uso, os tufos de hortênsias na ilharga voltada ao Norte, lado de onde ficava a residência paroquial, a uma dezena de passos da porta da sacristia.
A residência era para mim qualquer coisa participante da veneração que eu tributava à Igreja. Entre esta e a residência havia a mesma identidade que eu estabelecia entre Deus e o Prior. Este vivia no 1.º andar, para onde se subia por uma escada de pedra, que ainda existe, de construção mais recente do que a edifício, que foi profanado pela revolução de 1910, a qual o pôs à venda com o passal. O edifício, onde durante alguns anos depois funcionou o Correio, está hoje desabitado e, por isso, e atendendo a que é um edifício velho, está em pouco menos que ruínas.
À esquerda de quem sobe ficava uma pereira “figueiroa”, casta portuguesa de grande fama, a qual ainda lá está, também vèlhinha, mas dando ainda daqueles saborosos frutos que eram, e hoje mais do que nunca, a tentação da garotada. Naquele tempo quase se lhes tocava com a mão. Hoje, só trepando à árvore os rapazes conseguem colhê-los, sem terem a quem guardar respeito, visto a casa estar vaga. Por baixo era o celeiro e a adega, bem como os aposentos do sacristão e pessoal agrícola.
Paralela à residência, ocupando toda a área entre a casa e a igreja, cobrindo o terreno tapetado de relva espontânea, estendia-se uma parreira, alta à moda da região, desentranhando-se numa dupla abundância de sombra e de cachos – no Verão, já se vê. Debaixo desta parreira, junto à parede da residência, na face voltada à Igreja, ficava um banco, simples mas venerável pelas pessoas que ali costumavam sentar-se ao cavaco enquanto esperavam pela missa, pelo que aquele banco tinha para mim mais importância do que a poltrona de um ministro: três ou quatro séries de estacas fincadas no chão, e sobre elas uma tábua de pinho, e eis tudo. Ali vinham sentar-se as pessoas mais respeitáveis da freguesia (não falando do prior, que ficava no topo da pirâmide social), pessoas todas de elevados méritos mentais e morais. Era o Dr. José Pereira de Lemos, médico distinto, dotado de rara intuição no diagnóstico de uma doença e competentíssimo na medicação, figura bíblica nas suas barbas patriarcais emoldurando um rosto prazenteiro que, era, só de vê-lo à cabeceira, o melhor remédio para levantar as forças do doente.
Era o Dr. João Eduardo Nogueira e Melo, cérebro robusto mixto de jurisconsulto e de agricultor, advogado de fama nestas comarcas da redondeza e figura de alto relevo na política do distrito. Era o Professor Leal – Manuel Maria Mendes Leal, de seu nome por inteiro – que aliava as mais afectuosas qualidades de pai às de carinhoso professor, que deixou em cada aluno um amigo e que tinha numa gaveta da secretária a palmatória, a qual servia mais para meter susto do que para castigar e que, apesar dos seus cinco olhos, não conhecia os alunos, porque raras vezes os via. Era Manuel Maria Amador, o zeloso chefe de Conservação das estradas desta zona, as quais andavam sempre que era um primor, incansável funcionário em que se aliavam, de uma forma rara, qualidades de tipo popular e do diplomata, figura invulgar pela sua dedicação ao serviço público, grande conversador e relacionado com toda a gente. Mais madrugador que o melro, metia no estômago, de manhã cedo, uma terrina de sopas de café e , ala, ele aí vai, sentado à boleia do seu trem de 4 rodas. Não havia temporal que detivesse nem geada que bloqueasse este homem doente que, se parasse, morria, e se lhe entorpecesse a língua, emparvecia.
A. de M.