Parece que deu brado a minha última crónica, sobre as abelhas. Não foi decerto pelo chiste, pois que graça podia ter uma coisa que tanto me arreliou? O Zé de Melo, de quem já falei a propósito do receptor de Telefonia, também lhe achou muita graça quando, no regresso dos seus trabalhos de agrimensor, ouviu falar no caso. Isto valeu-lhe uma severa descompostura, diante de quem quis ouvir, quando me tocou no assunto, em que pretendeu ver fumos de pilhéria. Na verdade, apenas podiam despertar a piedade o chiar dos coelhos e os gritos da demais criação, espavoridos com o ataque de guerra dos endiabrados enxames.
Talvez algumas pessoas achassem exagero o resultado das picadas das abelhas. Eu também leio, na circunspecta (ou que devia sê-lo) “grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, na palavra “Abelha”, o seguinte:
“Embora não corresponda a perigo a picada da abelha, convém atenuar os seus efeitos dolorosos e incomodativos”.
Assim, para o autor destas palavras o único prejuízo resultante das picadas das abelhas são as dores que elas provocam. Decerto quer referir-se às pessoas. Eu é que não inventei quando afirmei que a capoeira me ficou despovoada. Também me parece que não inventaram os autores dos livros que citei ao relatarem as mortes de pessoas vitimadas pelo ataque das abelhas. Terá inventado o autor da notícia que me fez recordar aquele episódio da minha vida e que foi transmitida em telegrama de Viena, segundo a qual uma camponesa de Krems teria morrido vitimada por duas picadas de abelha? Teria a morte desta mulher sido uma simples coincidência?
Seja o que for, lá que os coelhos, as galinhas e os perus me morreram das picadas das abelhas é uma certeza e as suas mortes não foram simples coincidências de factos. E não contei tudo, para não tornar extenso o relato. Eu, por virtude das picadas que apanhei quando fui à cerca das aves na intenção de procurar salvá-las da hecatombe, tive uma intoxicação durante a noite, que bastante me incomodou. Não sei quantas picadas apanhei. Não tive tempo para as contar. Mas o certo é que durante a noite tive febre, acompanhada de uma agitação do coração, que decerto não podem ser atribuídas somente à comoção provocada pelo que relatei. Foi uma autêntica intoxicação.
Talvez esta me fizesse bem, pois a inoculação do veneno das abelhas preserva o organismo contra o reumatismo, e eu não sofro desse mal, apesar de muitos anos passados no Ultramar, em climas os mais diversos e húmidos.
Uma vez que estou com as mãos na massa, ainda conto um episódio sucedido com o pai do Zé de Melo. Este era Júnior, aquele era simplesmente José de Melo, antigo escrivão de direito na comarca de Luanda.
Habituado às terras tropicais, como sucede a muitos que, por lá andaram muitos anos, se desprendem completamente da metrópole, José de Melo Pai fixou a sua residência no Bié, depois de aposentado. Vivia só, ou juridicamente só. Tinha a mulher na metrópole com uma filha, mas de certa altura da vida em diante não voltou cá, tendo mandado ir o filho para a companhia dele, quando ainda em Luanda.
Tinha ele um carro Ford, daqueles primeiros que se fabricaram, de calça arregaçada, assim chamados por terem as rodas altas e se prestarem à travessia de regiões de solo irregular, semeado de pedregulhos, por entre e por cima dos quais o Ford passava sem se molestar.
Um dia, José de Melo Pai, apareceu em minha casa muito aborrecido, e contou o que sucedera.
Tinha-se instalado no carro para seguir para o Huambo (hoje, Nova Lisboa), quando, ao dar as primeiras pedaladas no arranque para pôr o carro a andar, sentiu uma forte picada debaixo dele, que o fez dar um salto. Saiu do carro para verificar o que se passava, e deu com um enxame de abelhas instalado dentro da almofada do automóvel, na qual se tinha metido por um pequenino orifício que as abelhas descortinaram na almofada. Esta era de couro, mais ou menos oca, com espaço suficiente para a colmeia trabalhar. As abelhas é que, senhoras da fortaleza, não consentiram que um estranho lhes fechasse a entrada, e puseram em acção a sua arma de defesa, dando uma forte ferroada naquilo que encontraram e que, pelos modos, não lhes ofereceu inteira resistência ao ataque.
Foi um trabalhão para espantar dali as abelhas, tendo-se aproveitado, para o feito, a perícia dos mais hábeis apícolas indígenas. É claro que José de Melo nesse dia não seguiu para Huambo, que fica a muitas dezenas de quilómetros de Silva Porto, que era, e é, a sede do Distrito do Bié, e hoje é sede de Província e de Diocese, além de Comarca, que já era, talvez, a melhor do nosso Ultramar, debaixo do ponto de vista climatérico. São das mais gratas ao meu espírito as recordações que conservo daquela terra, entre as quais avultam, como acabais de verificar, esses episódios em que as abelhas desempenharam o principal papel.