Isto passou-se por volta do fim de 1921, talvez princípio de 1922.
Organizadas em um grupo de umas 20 ou 30 pessoas, várias famílias tomaram um batelão da feitoria da Companhia da Zambézia, em Tete, e partiram em excursão, rio abaixo, atravessando-o a jusante, defronte do edifício onde funcionavam os serviços administrativos do agente da autoridade (hoje, dir-se-ia: chefe do Posto), que era o sr. Risques Pereira, de cuja filha, menina de 10 anos, eu fora professor em Coimbra, cerca de 12 anos antes, no Colégio Mondego, de que era Director e distinto professor Diamantino Dinis Ferreira, natural ali da Oliveirinha.
O amigo Risques Pereira esperava-nos para o almoço. Mas que rico almoço! Foi ali que pela primeira vez saboreei a deliciosa açorda à alentejana, preparada e condimentada por Eisques Pereira, com o carinho e devoção com que se tratam as coisas da nossa terra. Fiquei com tal simpatia por aquele acepipe, que nunca, na minha horta, faltam os coentros, que de vez em quando, para matar saudades, vão aromatizar uma açorda de alho e ovo cozido, com que engano o paladar.
E que bom caril! Na Índia não se faz melhor. Chegámos à hora do almoço, e este decorreu na melhor alegria, até que o amigo Risques Pereira, lançando o olhar experimentado para o céu zambeziano, useiro e vezeiro em surpresas meteorológicas, exclamou:
- Não tendes tempo a perder. Aquela nuvem negra traz temporal, e como tendes que subir o rio, arriscais-vos a ser apanhados no caminho pela monomocaia. (Chamam-se assim os tornados ou tufões que assolam frequentemente a costa de Moçambique).
Na verdade, uma nuvem negra como carvão, desenhava-se para o lado do mar, que dista de Tete, em linha recta, mais de 400 quilómetros, e tinha jeito de avançar pela terra dentro.
Tratámos logo dos aprestos para o regresso. Já todos conhecíamos os efeitos destas surpresas, e para vencer a largura do rio, que ali é de cerca de um quilómetro, contra a corrente, num batelão movido a braços pelos pretos, eram precisas bem duas a três horas.
Nunca, em minha vida, teve tanta utilidade a prevenção de me munir de um guarda-chuva como daquela vez. É verdade que aquele útil objecto saiu de casa comigo com a designação de guarda-sol, pois estava um sol de rachar pedras, como é o de Tete, que chega a estrelar um ovo nas horas de mais calor, e eu, que entre muitos defeitos, não tenho, graças a Deus, o da imprevidência, peguei nele, lembrando-me da que tinha um filho de dois anos que precisava de defender dos ardores do sol, e nunca esquecido do rifão que diz: “pão e gabão nunca pesaram na mão”. Quem dia gabão diz guarda-sol ou guarda-chuva. Daquela vez ele guardou as duas coisas: na partida guardou o sol, e no regresso guardou a chuva.
Ou tentou guardar. Porque aquilo não era chuva: era uma catarata que começou a desabar sobre nós a meio da viagem e a meio do rio, que era o poder de Deus. As senhoras já choravam e rezavam, porque a certa altura o céu ficou forrado de negro e a escuridão foi quase completa. Mal se desenhavam os areais, e receávamos que o batelão naufragasse sobre algum banco de areia. Eu, com a criança debaixo do guarda-chuva e a mulher muito aconchegada a nós, encharcados, porque o guarda-chuva era como um crivo, fazia como os restantes homens: animava, conforme podia, as senhoras e as crianças, sempre na esperança de ver surgir a margem direita do rio, aonde pudéssemos aportar. Ela surgiu, ao cabo de cruciante luta contra o vento, a impetuosidade da corrente, avolumada pela catarata desencadeada, e a negrura da noite, que viera antes de tempo.
Mas as margens do rio eram varridas pelas torrentes que se formaram com a abundância desconforme das águas da chuva e foi uma enorme dificuldade encostar o batelão a sítio seguro para se poder pôr pé em terra.
Fomos aportar ao sítio indicado pelas vozes dos criados que das casas dos seus amos acorreram às margens do rio, prevendo o que se passara e vindo trazer-nos socorro, tudo feito por iniciativa deles, pretos, a quem tanta gente calunia, desconhecedora dos dotes de ternura que o coração dos negros também alimenta. Lá estavam os machileiros com as machilas dos seus senhores, onde foram transportadas as crianças e as senhoras. Nós, os homens, palmilhámos o chão completamente encharcados até casa, numa distância de mais de um quilómetro.
Pois, apesar de tudo isto, molhado até aos ossos, ninguém se constipou, ninguém sofreu o mais leve resfriado!
Passados dias, por notícias chegadas do Chinde, soubemos que o tornado caíra em cheio sobre esta povoação e afundara várias embarcações a vapor pertencentes à flotilha mercante do Zambeze, as quais, por serem chatas, se voltaram, morrendo debaixo delas algumas das suas tripulações. Entre os que assim acabaram seus dias, contava-se um conterrâneo nosso, Xisto Pereira Lemos, irmão do falecido Orlando Pereira Lemos, que comandava um desses barcos, pertencentes à Sena Sugar.